Ir ao cinema é uma experiência única, sempre. Assistir ao recém chegado filme 2012, dirigido por Roland Emmerich e protagonizado por John Cusack é sem dúvida alguma uma experiência que nos ensina a escolher melhor um filme para ver no final de semana. O roteiro foi escrito por Roland Emerich e Harald Kloser e o filme fala sobre o possível fim do mundo em 2012. O mais incrível é que a gente sai do cinema pensando se o fim de um mundo inteligente não é aqui, agora!
O filme é uma espécie de mixórdia de recortes e ícones, puro clichê. Uma mistura de Arca de Noé com Titanic e Todos os Homens do Presidente. Como também alguma cena que nos remete ao bom e velho 007 mergulhando sem oxigênio, (mas com gravatinha) para salvar o mundo de um trapinho que atrapalha a engrenagem de tão suntuosa engenharia naval.
Não poderia deixar de mencionar um arremesso imediato às lembranças das Grandes Navegações com Santa Maria, Pita e Nina da caravana de Pedro Álvares Cabral (fiquei esperando uma voz ao fundo, gritando: “terra à vista!”) – aliás, a única referência ao Brasil é o Rio de Janeiro em plena olimpíada, com seu ícone maior: O Cristo!
E a escolha da trilha sonora? A música do trailer do filme é a mesma utilizada no trailer do filme “O Iluminado”. Duvido que Jack Torrence (interpretado por Jack Nicholson) se identificasse o roteiro em questão.
É risível ver que ao salvar os líderes mundiais, não existe nenhuma referência ao presidente do Brasil, ou cuba, ou a quaisquer outros líderes de qualquer país latino-americano. Tratamento oposto é dado ao super-homem norte-americano (of course!).
O Presidente dos Estados Unidos da América que, no caso do filme 2012, é mais que o conceito de Caetano Veloso sobre Marina Silva, pois não se limita a uma mistura de Barack Obama com Lula, ganha também uma aura de Dalai Lama e Gandhi ao esperar heroicamente pelo tsunami anunciado, na varanda da Casa Branca.
Uma organização chamada IHC (Institute for Human Continuity - Instituto da Continuidade Humana) (quase HIAC) percebe a situação e começa a salvar os maiores patrimônios da humanidade entre 2010 e 2011, entre eles a Mona Lisa, no qual vão ao Museu do Louvre e trocam a pintura original por uma réplica. E fiquei pensando: “por que não salvaram Andy Warhol ou Vik Muniz ou mesmo, quem sabe, Duchamps?”... Será que mesmo no fim do mundo só o que é consagrado como arte deve ser salva? Ou quem sabe, o roteirista é um fervoroso católico e temente ao Papa e a tudo que é cânone?
É, definitivamente deveria ser o HIAC no lugar do IHC para tentar salvar da mesmice e do cânone, o que o imperialismo cinematográfico americano entende por poder, arte e politicamente correto. Tudo bem que em se tratando de fazer jus a um partwork de referências a outras produções cinematográficas, 2012 deve ter-se inspirado em algum texto de Silviano Santiago quando este falou em hibridização.
Quem sabe um dia a indústria cinematográfica não adira à novas formas de alertar as pessoas para o fim do pensamento massificado e comece a salvar o expectador de experiências tão decadentes e sem conteúdo quanto a que vi na telona no último final de semana. Quem sabe um dia a arrogância norte-americana não consiga dobrar o seu próprio cabo da boa esperança e possibilite aos amantes do cinema assistir a filmes mais inteligentes? Definitivamente é um cinema catástrofe!
2012
Título original: 2012
Duração: 158 minutos (2 horas e 38 minutos)
Gênero: Ficção Científica
Censura: 10 anos
Direção: Roland Emmerich
Elenco: Amanda Peet, Chiwetel Ejiofor, Woody Harrelson, Thandie Newton, Thomas McCarthy
Ano: 2009
País de origem: EUA / CANADÁ